Reabertura de serviços nos municípios: evidências para tomada de decisão

Participantes

Fernando Galvão 
Prefeito de Bebedouro – SP e presidente do CODEVAR, Consórcio de Desenvolvimento do Vale do Rio Grande, que congrega 27 municípios do interior de São Paulo. 

Rudi Rocha
Doutor em Economia pela PUC-Rio, professor associado da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), vencedor de prêmios e grants internacionais, como o Newton Advanced Fellowship (Academia Britânica) e o Grand Challenges Explorations (Fundação Bill & Melinda Gates).

Vídeo

Desde que o coronavírus chegou ao Brasil, o debate sobre os impactos das medidas de isolamento social na economia do país tem sido frequente. No momento em que alguns municípios começam a flexibilizar a quarentena, como parte dos esforços para retomar a atividade econômica em meio à pandemia, a plataforma CoronaCidades promoveu um Webinar sobre o assunto. 

O professor, pesquisador e doutor em economia, Rudi Rocha, e o prefeito Fernando Galvão, de Bebedouro – cidade com cerca de 80 mil habitantes, no interior de São Paulo – conversaram sobre os cuidados e estratégias que os municípios deveriam adotar antes de afrouxar as medidas de restrição e ampliar a circulação de pessoas, considerando-se a ameaça ainda muito presente de propagação do coronavírus entre a população. 

Confira neste texto alguns pontos abordados no debate e assista à íntegra da conversa no vídeo ao lado.

A falsa dicotomia entre preservar a saúde e a economia

Existe uma falsa contradição entre priorizar medidas de proteção à saúde da população e preservar a atividade econômica em tempos de coronavírus. É essa a opinião do economista Rudi Rocha. “O dilema entre economia e saúde é muito mal utilizado”, explicou, durante sua participação no Webinar da plataforma CoronaCidades. 

Segundo o pesquisador, o custo econômico seria sem precedentes caso os municípios optassem por não adotar qualquer medida de prevenção à propagação do vírus. “Estamos falando de mortes diretas totalmente evitáveis que ocorreriam por conta da Covid, a queda na produtividade do trabalho, o colapso no sistema de saúde, que é inaceitável se evitável”, resumiu.

Uma vez que a grande maioria dos municípios brasileiros adotou alguma medida de contenção ou mitigação para reduzir a propagação do coronavírus, o professor ressalta que a coleta de informações e o acúmulo de conhecimento sobre cada contexto é fundamental antes do gestor decidir sobre a reabertura econômica. “Coletar informação é crucial para conseguir abrir a economia. Não dá para reabrir sem saber quais são as consequências disso. Não vamos conseguir sair, de maneira cuidadosa, sem conhecimento”, destacou. 

Realidades são diferentes, mas decisões precisam ser compartilhadas

Bebedouro foi uma das primeiras cidades paulistas a estabelecer o isolamento social por decreto municipal e está entre os 20 municípios com melhor desempenho no cumprimento da restrição, de acordo com monitoramento realizado pelo governo estadual.

Prefeito do município, Fernando Galvão também preside o CODEVAR, Consórcio de Desenvolvimento do Vale do Rio Grande, que congrega 27 municípios do interior de São Paulo. Durante o Webinar da plataforma CoronaCidades, o gestor reforçou que todas as medidas de enfrentamento ao coronavírus são tomadas em conjunto pelos municípios da região e o mesmo acontecerá em relação à flexibilização. “Neste momento, o processo decisório passa necessariamente pelo compartilhamento de decisões, não só em nível estadual, mas também em nível regional”, reforçou. 

Segundo o prefeito, é grande o fluxo de pessoas entre os municípios que integram o consórcio, que, em um contexto de normalidade, se deslocam para estudar, trabalhar ou visitar parentes. Em um cenário como esse, as decisões tomadas em uma cidade repercutem nos municípios vizinhos. Por isso a importância de padronizar certas regras. “Criamos um procedimento padrão nos 27 municípios e isso nos fortaleceu. Estamos com poucas mortes na região e conseguimos nos blindar”, destacou. 

Antes de flexibilizar, é fundamental analisar o cenário

O economista Rudi Rocha acredita que, no cenário atual, o Brasil deve direcionar esforços para evitar o crescimento da curva de contágio pelo coronavírus. Só depois, a discussão sobre a flexibilização das regras de isolamento deveria entrar na pauta. “Precisamos monitorar casos e projetar o uso da capacidade hospitalar instalada. A pandemia tem que caber no nosso sistema, caso contrário, pode virar uma carnificina”, alertou. 

De acordo com o professor, o monitoramento deve levar em consideração a realidade de cada localidade, mas também de cada região, já que muitos municípios de médio e pequeno portes dependem dos leitos de UTI instalados em cidades maiores. “Se os municípios não trabalharem juntos, com coordenação, vai virar um caos”, ressaltou. 

Prefeito de Bebedouro, Fernando Galvão concorda com a opinião do economista. “Precisamos considerar o número de casos, a quantidade de leitos de UTI com respiradores disponíveis, qual a influência das cidades próximas, tudo isso tem que ser levado em consideração antes de flexibilizar”, afirmou. 

Segundo Rudi Rocha, quando chegar o momento, as experiências de outros países podem ajudar a orientar a flexibilização no Brasil. “Teremos tempo para aprender com os países ricos. Eles estão começando a testar agora, com rodízios entre os setores da economia. É um aprendizado que vai ser super importante para a gente”, disse. 

Alternativas para manter a atividade econômica de forma mais segura

Durante o Webinar, o prefeito Fernando Galvão destacou algumas medidas adotadas no município de Bebedouro para manter alguns setores da atividade econômica, sem flexibilizar as regras de isolamento social.

Uma delas foi a criação de uma feira drive thru reunindo os produtores locais de alimentos. O sambódromo da cidade foi adaptado para receber a iniciativa, com barracas instaladas a pelo menos quatro metros de distância uma das outras. Antes de ingressar no evento, os carros e motos passam por um processo de desinfecção. Máscaras e álcool em geral são distribuídos gratuitamente para o público, que também passa por medição de temperatura antes de receber autorização para entrar. “Conseguimos manter a feira sem aumentar a circulação de pessoas e já estamos na terceira edição”, destacou o prefeito. 

Assista à íntegra do Webinar  sobre reabertura de serviços nos municípios no vídeo ao lado. 

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