Tire suas dúvidas sobre reabertura de escolas

A Escola Segura, ferramenta online focada em orientar uma reabertura planejada da rede de ensino pública diante da Covid-19, promoveu encontros online com Wanderson Oliveira, epidemiologista e ex-Secretário Nacional de Vigilância em Saúde, para solucionar dúvidas de gestoras e gestores públicos sobre o assunto. 

Quatro encontros foram realizados, sempre às terças-feiras (24/11, 01/12, 08/12 e 15/12), e trataram sobre o uso de EPI nas escolas, a importância da definição conjunta de fluxos e sistemas de notificação entre secretarias de saúde e de educação, bem como ressaltaram as boas práticas pelo país.

Confira os assuntos abordados nos encontros online sobre reabertura de escolas

A discussão sobre reabertura de escolas diante da Covid-19 é impulsionada pela preocupação com os impactos do isolamento e do ensino remoto no aprendizado dos alunos. Ao mesmo tempo, a decisão sobre a retomada é complexa e precisa levar em consideração o cenário do novo coronavírus em cada localidade, com foco em preservar a saúde de estudantes, professores e comunidade escolar. 

Nos  encontros online promovidos pela plataforma Escola Segura para discutir o assunto, o ex-Secretário Nacional de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, destaca a necessidade da gestão pública debater e refletir sobre o tema, para que seja possível planejar uma retomada de forma segura e gradual. 

O especialista destacou que, nas experiências de reabertura adotadas até o momento no país, ainda não foi identificado nenhum surto intraescolar — em que há aumento repentino de contaminados dentro da escola — “A escola tem se mostrado um ambiente mais protegido do que a sociedade em geral”, afirmou. E alertou: “Nós vamos aprender a lidar com as dúvidas na prática. Se não exercitarmos, não vamos aprender”.

Quais os principais protocolos e equipamentos de proteção individual que devem ser adotados dentro da escola em uma eventual reabertura?

O epidemiologista Wanderson Oliveira reforça a importância do uso de EPIs e adoção de medidas preventivas em uma eventual reabertura de escolas. Segundo o especialista, é fundamental o uso de máscaras para crianças acima de oito anos e todos os profissionais da equipe escolar, a manutenção de espaços ventilados e da distância de 1,5 metro entre os estudantes, bem como a higienização constante das mãos com água, sabão e álcool em gel.  

“O que deve ser evitado é o contato próximo, sem máscara, por mais de 15 minutos, a menos de um metro e meio de distância. Passar no corredor de máscara, por exemplo, não é contato próximo”, explicou.

< A Escola Segura traz um guia com 10 passos para uma reabertura segura da rede de ensino >

Como conscientizar e manter a comunicação com pais e responsáveis sobre regras e eventuais medidas de restrição?

De acordo com o especialista, o diálogo com a comunidade deve ser uma constante no processo de retomada de atividades presenciais em escolas. “Precisamos dialogar com pais, responsáveis, lideranças comunitárias onde a escola está inserida para esclarecer que a pandemia não acabou. As medidas preventivas objetivam evitar ao máximo que casos dentro da escola aconteçam, mas eles podem acontecer”, reforçou. 

Para esse diálogo, a orientação é para que as escolas criem ambientes para ouvir e sanar dúvidas dos pais sobre os protocolos e medidas adotados. Wanderson Oliveira sugere o uso de ferramentas digitais gratuitas, como as disponíveis no Google, para promover reuniões online com pais e responsáveis e a criação de canais específicos no WhatsApp para essa comunicação. 

Além das escolas, as secretarias municipais de educação também podem contribuir com uma comunicação constante e esclarecedora com esse público. “Às vezes, a escola não tem dinheiro para manter uma linha de telefone exclusiva para essa comunicação com pais e responsáveis. A prefeitura poderia suprir essa situação, estabelecer um canal para receber demandas de pais e responsáveis, criar boletins informativos para que os pais se mantenham informados sobre o que está acontecendo no ambiente da escola em relação à Covid”, complementou. 

Quais ações gestoras e gestores públicos da educação devem ter no radar para as primeiras semanas de janeiro?

Para pensar sobre a retomada das atividades presenciais em escolas, é importante compreender o cenário da Covid-19 no município. Para quem vai iniciar o planejamento em janeiro, Wanderson Oliveira sugere, como primeira iniciativa, promover uma integração entre os dados da saúde e da educação, para avaliar como está a presença do vírus nos últimos 14 dias entre a população com idade escolar. “É importante avaliar quantas pessoas estão com Covid-19 na faixa etária do ensino fundamental, ensino médio e creche, por exemplo. A (Secretaria de) Saúde dispõe desses dados e pode compartilhá-los com a (Secretaria de) Educação”. Segundo o especialista, o início do ano é uma oportunidade de definir uma agenda para os encontros entre as áreas de saúde e educação. “Esses encontros precisam ter regularidade”, reforça.

Outro ponto fundamental é revisar a estrutura das escolas, realizar um inquérito para entender o que precisa ser corrigido nas instalações, considerando a necessidade de ventilação, espaço entre carteiras, torneiras e aquisição de equipamentos como termômetros, tapetes de higienização e material de limpeza em geral. “Não dá para reabrir e só depois perceber a necessidade de instalar uma torneira, por exemplo”, reforça Wanderson.

Também é importante apresentar os planos da gestão de educação para os pais e responsáveis. “Mesmo que seja para informar que não vão reabrir as escolas, é importante mostrar para sociedade que algo está sendo feito”, reforçou Wanderson.

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Como identificar casos suspeitos e monitorar a presença da Covid-19 nas escolas?

A orientação de Wanderson Oliveira é para que as escolas promovam a vigilância de síndrome gripal. Segundo o especialista, em um primeiro momento, só com sintomas, não é possível cravar que um quadro é ou não de Covid-19. Diante da suspeita, os protocolos já devem ser acionados e as medidas serão mais ou menos restritivas dependendo da confirmação após a realização de testes. “Na definição de síndrome gripal eu tenho um quadro de sintomas, como tosse, febre e dor no corpo, por exemplo. Todos que apresentarem esse quadro serão considerados suspeitos pela escola”, explicou. “A escola passa a fazer parte de um rede de vigilância em saúde”, reforçou. 

Qual o sistema de informação mais adequado para as unidades escolares notificarem casos suspeitos e confirmados de Covid-19?

A decisão sobre o fluxo de notificação de casos suspeitos e confirmados de Covid-19 deve ser definida entre unidades escolares, secretaria de educação e secretaria de saúde. Segundo Wanderson Oliveira, alguns municípios já estão adotando o sistema de notificação do Ministério da Saúde, chamado e-SUS Notifica. “A escola pode se cadastrar no sistema  do SUS, registrar o seu caso e administrar suas informações dentro do sistema, acessando o banco de dados sempre que quiser”. As informações inseridas no e-SUS Notifica são enviadas automaticamente para a secretaria de saúde. Mas muitos estados e municípios já dispõem ou estão desenvolvendo sistemas próprios de notificação. Por isso, a  orientação é para que as unidades escolares entendam com as secretarias de educação e saúde qual o fluxo estabelecido em sua localidade. 

Que critérios adotar para decidir fechar uma turma ou uma escola inteira?

Segundo Wanderson Oliveira, esses critérios vão variar de acordo com a realidade da escola e o modelo pedagógico adotado nessa retomada. “Se a escolha foi pelo sistema de bolhas, em que existem grupos de estudantes e não há contato entre alunos fora dessas bolhas, pode ser o caso de fazer o isolamento só daquele grupo, ou de uma sala de aula, mas não será necessário fechar a escola toda”, esclareceu. Caso o modelo adotado contemple a mesclagem de turmas, será necessário avaliar caso a caso. A adesão ao uso de EPIs, a ventilação dos espaços e a distância entre carteiras devem ser considerados nessa avaliação. 

Segundo o especialista, fechar a escola diante de uma necessidade de conter a Covid-19 não deve ser considerado um retrocesso, mas o processo sempre em aprimoramento. “Se eu tive um caso e precisei fechar a escola, interrompo as atividades por 14 dias, monitoro a evolução daquele caso, se a testagem deu positivo ou negativo, e depois retomo as atividades presenciais, com as medidas e cuidados necessários”, complementou. 

Como a dinâmica de bolhas pode ser implementada no ensino público?

No modelo de reabertura fundamentado em bolhas, os estudantes só interagem com um grupo fixo de pessoas na escola. Caso haja alguma contaminação, é possível, em um primeiro momento, isolar apenas aquela bolha, que esteve em contato com o suspeito. Wanderson Oliveira explica que esse modelo precisa ser adaptado à realidade de cada escola. “Não posso fazer uma reabertura escolar pensando na escola que existia antes da pandemia. É uma outra escola, que gira em torno de 40% a 60% da capacidade anterior instalada”, explica. “Eu posso dividir grupos de estudantes em uma mesma sala, bem ventilada, e organizar de tal maneira que crie camadas de proteção. Se todos os estudantes, professores, funcionários estiverem usando máscara, higienização das mãos e respeitando a distância de 1,5m, o risco de contaminação é baixo”, reforça. 

Quais boas estratégias têm sido adotadas no dia a dia de escolas que já reabriram e podem servir de exemplo?

O epidemiologista elencou algumas boas práticas adotadas por redes de ensino no país para controlar a Covid-19 entre estudantes. Uma delas é fornecer grupos de máscaras divididas por cor para orientar a troca ao longo do período escolar. “O aluno utiliza três máscaras em um período, no primeiro horário são as máscaras azuis, no segundo as máscaras brancas e no terceiro, máscaras amarelas. Com essa divisão, a equipe escolar consegue identificar se os estudantes estão fazendo a renovação das máscaras corretamente”, exemplificou. Outra boa prática é a adoção, sempre que possível, de atividades ao ar livre, em que a chance de transmissão do coronavírus é muito menor. 

Quais diferenças de estratégia podemos pensar para escolas urbanas e rurais?

Wanderson Oliveira considera que o acesso a testes é um fator que pode ser diferenciador para aquelas escolas localizadas em cidades maiores em comparação com as instaladas em localidades menores. Mas mesmo sem a possibilidade de confirmar a covid-19 por teste, a escola tem total possibilidade de fazer a vigilância da doença, usando como critério a identificação de sintomas. “A realidade logística é diferente, mas se eu identifico sinais da síndrome respiratória e já afasto o caso suspeito, o teste é um acessório, o mais importante é identificar o suspeito e agir”, explica.

Boas Práticas pelo país

Nos encontros, Wanderson Oliveira destacou algumas experiências de retomada das atividades presenciais na rede pública. “Em Manaus e Fortaleza temos bons exemplos de planejamento dessa retomada. Em Porto Alegre, foi feito um formulário do google forms para as escolas preencherem e notificarem casos suspeitos. No Amazonas, estão realizando inquéritos sorológicos e acompanhando os dados de notificações feitas por escolas, números de casos para alimentar um boletim regular”, reforçou. 

Conheça a Escola Segura e saiba como planejar a retomada das atividades presenciais diante da Covid-19. 

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