Como organizar a atenção básica em saúde em tempos de Covid-19

Participante

Helyn Thami – Mestre em Gestão e Políticas Públicas em Saúde, com residência em Saúde da Família pela Fiocruz, e pesquisadora do Instituto de Estudos Para Políticas de Saúde (IEPS)

Vídeo

Mestre em Gestão e Políticas Públicas em Saúde, Helyn Thami comandou o Webinar promovido pela plataforma CoronaCidades sobre atenção básica em saúde. A especialista apresentou diversas alternativas e ferramentas que podem ajudar os municípios na conciliação das demandas programadas de atenção básica com a busca por atendimentos relacionada ao coronavírus.

Helyn reforçou que os municípios não devem fechar as portas da atenção básica para as demandas programadas, pois esse tipo de resolução representaria um sério retrocesso nos indicadores de saúde da população, culminando em aumento das mortalidades materna e infantil, entre outras graves consequências. Diante do desafio imposto pelo coronavírus, a pesquisadora mostrou como algumas técnicas podem ajudar a organizar o fluxo de usuários e tornar a gestão do sistema de saúde do município mais assertiva. 

Confira algumas sugestões e acesse o vídeo do Webinar para conferir o conteúdo na íntegra:


Como separar o fluxo de situações de contingência das ações programáticas?

Com o coronavírus, a tendência é que as unidades de saúde passem a lidar com o aumento na busca por atendimento de usuários com sintomas respiratórios. Helyn Thami explicou quais estratégias adotar para receber essas pessoas, sem abandonar o atendimento das demandas programadas, caso de hipertensos, diabéticos e gestantes. 


Opte pela segmentação

Na segmentação, a unidade de saúde faz a separação física dos fluxos de pessoas que chegam como demanda programada daqueles que chegam como demanda espontânea. Helyn apresentou algumas possibilidades de segmentação, que podem ser adotadas de acordo com a realidade de cada unidade de saúde e de cada município:

  • Unidades com mais de um consultório podem reservar uma sala e um profissional para atendimento das demandas programadas e outra para pacientes com sintomas respiratórios, estabelecendo a entrada e o percurso de cada público por caminhos diferentes.
  • Unidades pequenas, com um só cômodo, podem adaptar uma ambulância na área externa, com janelas abertas, para separar os fluxos. Um grupo de usuários é atendido na ambulância e outro dentro da unidade.
  • É possível também instalar uma unidade de triagem na área externa do serviço, em que sintomáticos respiratórios já são separados fisicamente, o que ajuda a evitar aglomeração e contaminação.
  • Dependendo da realidade do município, é possível fazer a segmentação por unidades, estabelecendo a centralização de pré-natal em maternidades, por exemplo, enquanto outros espaços se dedicam ao atendimento de sintomáticos respiratórios.

Evite a reserva de agenda

Nessa técnica, não recomendada pela especialista, na mesma unidade, são separados horários para atendimento de demanda programada e horários para a demanda espontânea. Estudos demonstram que o modelo favorece o aumento de tempo de espera pelo atendimento, o que pode gerar aglomeração de pessoas, algo que deve ser evitado em meio à pandemia de coronavírus. “O serviço de saúde pode funcionar como usina de transmissão, o que é péssimo”, afirmou Helyn.


Como os Agentes Comunitários de Saúde podem ser melhor aproveitados na estratégia?

O Ministério da Saúde estabeleceu algumas recomendações válidas para os Agentes Comunitários de Saúde diante da pandemia de coronavírus. Entre elas está a definição de que aqueles que integram grupo de risco não podem trabalhar com atendimento ao público. Também é fundamental que aqueles que continuem indo a campo disponham de EPIs, como máscara cirúrgica e avental. 

Segundo Helyn, mesmo os ACS afastados do atendimento ao público podem contribuir com a estratégia de manutenção da atenção básica de saúde no município. A especialista listou algumas situações em que esses profissionais podem colaborar durante esse período de crise: 

  • Os agentes que não integram grupo de risco podem seguir atuando na busca ativa e no cumprimento da agenda da atenção básica. Sempre com o cuidado de evitar entrar nos domicílios das pessoas e mantendo sempre o uso do EPI adequado. A entrada no domicílio só deve ocorrer quando for imprescindível.
  • Os ACS também podem contribuir muito na comunicação com a população, pois são muito procurados para tirar dúvidas. É importante que eles disponham da melhor informação, a mais atualizada sobre o sistema, para repassar aos usuários.
  • Mesmo os ACS afastados do atendimento ao público dispõem de um conhecimento sobre a realidade das localidades onde atuam e podem contribuir no planejamento das estratégias, no mapeamento de áreas mais vulneráveis, na identificação de áreas de concentração de populações de risco, entre outras contribuições.

Como enfrentar o desafio de promover a expansão das equipes de saúde do município?

Os municípios têm se esforçado para reforçar seus quadros e atender ao aumento na demanda dos serviços de saúde. De acordo com Helyn Thami, esse trabalho tem que ser precedido de um planejamento.“Não adianta chamar todo mundo e não ter plano de alocação”, explicou. 

Segundo a especialista, é importante integrar novos profissionais e demandas que surgem em tempos de coronavírus  com as estratégias de saúde da família. 

Algumas orientações podem ajudar a guiar essa expansão: 

  • Criar um plano de alocação para identificar, dentro do sistema de saúde, profissionais com experiência em cuidado intensivo e deslocá-los para essas funções. “Tem médico de família que também é intensivista. Neste momento, é melhor ele atuar no intensivo do que na saúde básica”, explicou Helyn.
  • Identificar funções que podem ser mais facilmente absorvidas por recém formados e profissionais com menos experiência, como, por exemplo, a rotina de passar visita para pacientes estáveis. “As pessoas com habilidades mais específicas precisam ser deslocadas para tarefas mais complexas”, explicou Helyn.
  • Depois de identificar os perfis dos profissionais já disponíveis e as carências, é o momento de promover a contratação. “Aproveita iniciativas como Programa Médicos pelo Brasil, contrato temporário. Vai ser necessário contratar mais gente para o SUS, não há a menor dúvida”, reforçou.

Gestantes, hipertensos e diabéticos 

Durante o Webinar, participantes fizeram perguntas focadas em hipertensos, diabéticos e gestantes, alguns públicos acompanhados na esfera da atenção básica em saúde.

Diante do coronavírus, faz sentido separar uma unidade exclusiva para atender gestantes?

Segundo Helyn, é necessário levar em conta a questão geográfica. Se só há uma maternidade no município e ela está localizada em uma região distante da maioria das pessoas, criar unidade exclusiva para atendimento de gestantes não é a melhor estratégia. A preocupação é reduzir ao máximo a circulação da gestante pela cidade, o que pode deixá-la exposta ao coronavírus. Se existem várias maternidades, ou pelo menos ambulatórios, na cidade aí sim pode ser válido fazer a separação. Caso contrário, a sugestão da palestrante é separar consultórios nas unidades, com entrada independente e cuidado com a higienização, e reservá-los para esses atendimentos. “Ou trabalha em contêiner, ambulância adaptada, espaços de atendimento na área externa das unidades”, complementou. 

Neste cenário, qual a melhor estratégia para dispensação de medicação e prescrição para doentes crônicos, hipertensos e diabéticos, por exemplo?

De acordo com a especialista, o paciente só deveria receber uma prescrição mais longa de medicação se tiver um histórico clínico que permita dizer que ele é muito bem controlado e não está sob risco de agudização iminente. Em outros casos, o ideal é a manutenção da busca ativa, para que o paciente passe na consulta e receba a prescrição necessária. “Nos casos já controlados, o médico faz a prescrição e o ACS pode levar o receituário, ou pode ser instalada uma mesa do lado de fora da unidade para dispensar o medicamento sem que o usuário precise entrar no espaço”, exemplificou.  

Para mais informações, assista a íntegra do Webinar sobre atenção básica em tempos de Covid-19.

Conheça também o Simulacovid, ferramenta que ajuda o município a simular a demanda por leitos e ventiladores durante o combate ao coronavírus. Acesse ainda outros conteúdos que podem apoiar sua cidade na organização do sistema de saúde durante a pandemia. 

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