A pandemia nos municípios: projeções e perspectivas do contágio para as próximas semanas

Participantes

Ana Paula Pellegrino
É doutoranda em ciência política na Universidade de Georgetown e coordena o SimulaCovid, ferramenta de previsão de demanda hospitalar por pacientes com Covid-19 da Impulso. Internacionalista formada pela PUC-Rio, foi pesquisadora do Instituto Igarapé, onde trabalhava com política de drogas, justiça criminal e segurança pública.

Fábio Ferraz
Atual Secretário Municipal de Saúde, foi Secretário de Gestão de Santos de 2013 a 2016, Diretor de Habitação da COHAB-ST – Companhia de Habitação da Baixada Santista, chefe de gabinete do deputado estadual Paulo Alexandre Barbosa na Assembleia Legislativa de São Paulo, assessor parlamentar na Câmara Municipal de Santos e exerceu a advocacia nas áreas previdenciária e trabalhista. Master em Liderança e Gestão pelo CLP – Liderança Pública, com módulo internacional na Harvard Kennedy School of Governament, mestre em gestão de políticas públicas pela FGV/SP, especialista em direito processual civil e bacharel em direito pela Universidade Católica de Santos.

Luana Tavares
Formada em Publicidade e Propaganda, pós-graduada em Administração de Empresas pela FGV e possui duas certificações na Harvard Kennedy School of Government, uma em Desenvolvimento de Lideranças e outra em Gestão Pública. É Diretora Vice Presidente do CLP e também faz parte, voluntariamente, do Conselho Consultivo da Muove Brasil e do Conselho Executivo Fundador do Poder do Voto. Anteriormente, atuou por 7 anos na Fundação BRAVA, onde reforçou sua paixão pelo Brasil e pelo desenvolvimento do setor público como o caminho para melhorar a vida das pessoas.

Vídeo

O coronavírus já circula em todos os estados brasileiros, mas não está presente da mesma maneira em todos os lugares. Cada município tem sua realidade específica e os gestores públicos precisam levar uma série de fatores locais em consideração antes de tomar decisões. 

Diante da multiplicação acelerada do vírus no país, o Diálogos CoronaCidades reuniu a pesquisadora e coordenadora do SimulaCovid, Ana Paula Pellegrino, e o Secretário de Saúde de Santos (SP), Fábio Ferraz, para uma conversa sobre o avanço da pandemia na perspectiva dos municípios. 

No encontro, os debatedores conversaram sobre a importância de colher dados para nortear as decisões regionais. Houve um consenso entre os convidados: melhorar os níveis de testagem é fundamental para projetar o contágio, preparar o sistema de saúde e salvar vidas, sempre considerando-se a diversidade de realidades dentro do Brasil. 

Confira alguns pontos abordados no debate e assista à íntegra da conversa no vídeo ao lado.

O problema da subnotificação: faltam dados para projetar cenários

A pesquisadora Ana Paula Pellegrino coordena o SimulaCovid, ferramenta desenvolvida pela plataforma CoronaCidades para simular a demanda por leitos hospitalares e ventiladores em cada localidade e ajudar os gestores públicos no processo de tomada de decisão. 

No Diálogos CoronaCidades, Ana Paula destacou a dificuldade de projetar cenários nos municípios brasileiros diante do número insuficiente de testes realizados no país até aqui. “O que a gente tem de números (do coronavírus) no Brasil já é alarmante, mas ainda está muito subnotificado”, destacou a especialista. 

Segundo Ana Paula, o problema da subnotificação impacta no processo de tomada de decisão dos gestores públicos. “ Você depende desses dados para saber para onde caminhar. A produção de dados confiáveis é crucial para sabermos se estamos controlando a doença”, reforçou. 

Secretário de Saúde de Santos, no litoral paulista, Fábio Ferraz compartilhou a experiência da cidade no esforço para coletar dados confiáveis que ajudem a nortear as políticas públicas.

Diante da demora do Governo Federal, que só em maio começou a disponibilizar testes para os municípios, a Secretaria de Saúde de Santos adquiriu, ainda no início de abril, 20 mil testes RT-PCR, que têm um melhor nível de precisão, para monitorar o avanço do coronavírus na população de cerca de 430 mil habitantes.  “Fizemos contrato com um laboratório privado, em 48 horas eles precisam me devolver o laudo para termos a confirmação do ponto de vista epidemiológico”, explicou Fábio Ferraz. 

Com a iniciativa, Santos tem conseguido testar mais do que outras cidades, o que lhe garante dados mais precisos e atualizados sobre o cenário local. “Estamos com um coeficiente de letalidade relativamente baixo comparado a outras regiões brasileiras porque estamos conseguindo testar”, afirmou Fábio. 

Cada região tem evolução epidemiológica própria

Muito tem se falado sobre o cálculo de semanas epidemiológicas desde que o primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil, em uma tentativa de projetar quando seria o pico da curva de contágio no país. No entanto, a pesquisadora Ana Paula Pellegrino acredita que mais importante, e desafiador, é traçar uma curva epidemiológica para cada município ou região.

“Se você parar para pensar, cada cidade é um sistema e, em cada sistema o contato entre as pessoas ocorre em uma determinada velocidade, (gerando) um ritmo de contágio próprio. Por isso, cada lugar vai atingir o seu pico em um momento diferente”, explicou Ana Paula. 

Segundo a especialista, considerar somente os dados gerais do país para tomar decisões pode gerar equívocos. “É no município que é tomada a decisão e é onde a gente precisa medir como está o controle e o contágio da doença”, especificou. 

Monitoramento é fundamental para qualquer reabertura

Não é possível retomar as atividades dos municípios como se não houvesse coronavírus. Pelo menos por enquanto, o vírus continuará circulando e provocando internações e mortes entre os infectados. 

Para o Secretário de Saúde de Santos, Fábio Ferraz, alguns parâmetros precisam ser seguidos antes de qualquer tomada de decisão do gestor público no sentido de flexibilizar as restrições que foram adotadas para controlar o contágio da doença.

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Para o secretário, três fatores devem ser avaliados antes da reabertura: 

Bom nível de testagem: “quando você tem um alto grau de testagem, vai ter o percentual de contágio na população e entender se pode avançar ou não na relativização”, afirmou Fábio.

Taxa de ocupação hospitalar: “não dá para trabalhar (a flexibilização) com uma taxa de ocupação de leitos de UTI acima de 80%. É preciso ter uma taxa sustentável”, defendeu o secretário.

Alto grau de proteção entre profissionais de saúde e a população: “tenha estoque de EPIs para atender os profissionais de saúde e um alto grau de higienização comprovado, a população aderiu, está usando máscara, os estabelecimentos comerciais estão fazendo controle de acesso na porta, tem álcool em gel”, elencou. 

“Com esses três elementos dá para fazer uma agenda de saída gradual da quarentena”, resumiu o secretário.

Assista à íntegra do Diálogos CoronaCidades no vídeo ao lado. 

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